


Não há alternativas
A Copa do Mundo voltou ao centro de uma disputa que vai além do futebol: a forma como parte da torcida organiza suas preferências quando o Brasil sai de cena. Em uma publicação que circula nas redes, a ideia de “torcer de forma decolonial” virou mote para uma lista de prioridades que coloca países da América Latina, da África, da Ásia e do Leste Europeu à frente de seleções tradicionais da Europa Ocidental e dos Estados Unidos.
O conteúdo, apresentado em tom de provocação, sugere uma hierarquia de apoio depois do Brasil. A ordem começa com países da América Latina, com exceção da Argentina, passa por África, exceto Marrocos, e Ásia, exceto Coreia e Japão, antes de incluir Leste Europeu, Espanha, Europa Ocidental com exceções, Inglaterra, Austrália, Canadá e, por último, os Estados Unidos. A pergunta que acompanha a lista é direta: se o Brasil for eliminado da Copa, a torcida seguirá apenas critérios considerados “decoloniais”?
A provocação aparece justamente em um momento em que a Copa do Mundo de 2026 ganha peso especial para o público brasileiro. A Seleção está confirmada no torneio, que será disputado em Canadá, México e Estados Unidos, com 48 seleções e 104 jogos. O Brasil estreia em 13 de junho, contra o Marrocos, em Nova York/Nova Jersey, e ainda enfrentará Haiti e Escócia na fase de grupos. A competição, que começa neste mês, recoloca o país no centro da atenção esportiva e também das discussões simbólicas que costumam acompanhar grandes torneios. (fifa.com)
A expressão “decolonial” tem sido usada em debates acadêmicos, culturais e políticos para questionar a centralidade histórica da Europa e dos Estados Unidos na produção de conhecimento, na cultura e na forma como o mundo é narrado. No caso da postagem, o termo é transportado para o campo da torcida, como uma espécie de filtro para escolher quem merece apoio depois da eliminação brasileira. A lista, porém, não é um manifesto formal nem uma regra de comportamento; funciona mais como ironia, comentário cultural e provocação sobre preferências esportivas. Essa leitura é uma inferência a partir do teor do texto publicado.
O recorte também chama atenção por misturar critérios geográficos, políticos e afetivos. Ao excluir Argentina, Marrocos, Coreia, Japão e alguns países da Europa Ocidental, a publicação cria uma divisão que não é puramente continental. Há ali uma tentativa de organizar simpatias a partir de uma visão crítica sobre poder, hegemonia e representação no futebol mundial, ainda que de forma simplificada e deliberadamente provocativa. No ambiente das Copas, esse tipo de classificação costuma aparecer como brincadeira, mas também revela como o torneio mobiliza identidades, rivalidades e afinidades que vão muito além do placar.
Para o Brasil, a discussão ganha outra camada porque a Seleção carrega uma tradição única no torneio. O país é o único a ter participado de todas as edições da Copa do Mundo e busca o sexto título em 2026. A própria FIFA tem destacado recordes históricos da equipe e a presença de jogadores brasileiros em clubes do país-sede e de outras seleções, o que reforça o peso da competição para o futebol nacional. Em outras palavras, a eliminação brasileira, quando acontecer, não encerra apenas uma campanha esportiva; ela costuma abrir espaço para novas torcidas, comparações e disputas simbólicas entre seleções. (fifa.com)
A postagem também dialoga com um tipo de comportamento bastante comum em Copas: a busca por uma “seleção substituta” depois que o time principal sai. Em geral, esse movimento mistura afinidade cultural, estilo de jogo, jogadores conhecidos e rejeição a potências tradicionais. A diferença, neste caso, está no vocabulário escolhido, que transforma uma conversa informal de torcida em uma chave ideológica. Isso ajuda a explicar por que o conteúdo chamou atenção: ele não fala apenas de futebol, mas de como o futebol é usado para organizar visões de mundo, ainda que de maneira leve e até satírica.
No fim, a publicação funciona como um retrato de um debate recorrente em períodos de Copa: para quem vai a torcida quando o Brasil deixa a competição? A resposta, no caso do texto, vem em forma de lista e de provocação. O que está em jogo não é uma regra objetiva, mas a maneira como o torcedor tenta se posicionar diante de um torneio que, além de esportivo, também é cultural e simbólico.

Enviado a 1 mês atrás
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