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O Ano do Cavalo: Lucas Henrique Basilio dá voz aos rios feridos

Publicado pela Patuá, o novo livro do poeta curitibano reúne rios, memória e inquietação. Conheça a escrita do autor e saiba onde comprar.

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Exemplar de O Ano do Cavalo, de Lucas Henrique Basilio, sobre uma mesa de madeira; capa verde com imagem de um rio ramificado.Crédito da imagem: Divulgação / Editora Patuá
Exemplar de O Ano do Cavalo, publicado pela Patuá. As laterais da mesa foram expandidas por IA; o livro foi preservado da fotografia original.

O que acontece com a linguagem quando um rio deixa de sustentar a vida e passa a carregar a devastação? O Ano do Cavalo, de Lucas Henrique Basilio, chega pela Editora Patuá com uma poesia atravessada por água, matéria e memória. A paisagem entra nos versos com seus ferimentos; a voz de quem escreve procura uma maneira de continuar falando diante deles.

No novo livro do poeta curitibano, a contaminação dos rios se aproxima do medo, do desejo e da dificuldade de dizer quem se é. A apresentação da obra acrescenta a esse universo a passagem do tempo e a permanência dos mortos. O que acontece fora do corpo atravessa a voz dos poemas.

A editora disponibilizou para leitura gratuita cinco poemas de O Ano do Cavalo. São trechos do próprio livro de Lucas Henrique Basilio, que permitem conhecer sua escrita antes da compra. Esta apresentação parte desses poemas e das informações sobre a obra divulgadas pelo autor e pela Patuá.

O Ano do Cavalo: um rio que já não devolve o nosso rosto

No poema identificado pelo número 20, a água aparece ameaçadora, opaca, afastada da vida animal. O verso um rio que agora mata condensa uma transformação brutal. A palavra agora importa: ela faz sentir uma ruptura, como se o presente guardasse a lembrança de outra relação possível com aquele curso d’água.

O poema aproxima sentidos distintos pela repetição de uma palavra: mata faz ouvir uma ação violenta e a presença da vegetação. A floresta e a morte se encostam na leitura; aquilo que costuma nomear um ambiente vivo também faz ouvir sua destruição. É um procedimento pequeno na extensão e incisivo no efeito.

Há ainda o desaparecimento do reflexo. A superfície turva dificulta reconhecer uma imagem, uma presença, talvez a própria pessoa que olha. É possível ler esse rio como um lugar onde também se perde uma forma de pertencimento. A violência contra a paisagem alcança a relação de quem vive diante dela com o mundo.

Um futuro que ameaça chegar antes da hora

O poema de número 16 amplia a escala. A sequência aproxima ameaça atômica, extinção e cataclismo; em seguida, traz mecanismos e estruturas industriais para dentro de uma imagem de voracidade. A enumeração produz acúmulo: o leitor atravessa uma sucessão de perigos sem encontrar imediatamente uma pausa que organize tudo.

O futuro pressiona o presente antes mesmo de chegar. No poema, as marcas de tempo se sobrepõem: há algo de já vivido no desastre que ainda se anuncia. A sensação de avanço convive com a de esgotamento, como se a época corresse depressa demais para um lugar do qual já conhece a ameaça.

Na leitura desses dois textos, chama atenção a passagem entre escalas: da superfície de um rio ao horizonte de uma catástrofe, do corpo próximo à maquinaria de uma época. É aí que a abordagem ambiental ganha interesse literário. A ameaça é sentida na escolha das palavras e na maneira como elas se sucedem.

A voz procura uma saída em meio ao escuro

Em Menestrel, a atenção se volta para o ato de dizer. O poema aproxima escrita, medo, luz e voz. A palavra registrada no papel abre uma passagem; o som se espalha para além de quem o emite. Na leitura, a repetição de consoantes e o encadeamento de termos criam uma energia de insistência.

Experimentar esse texto em voz alta revela parte de sua construção. A boca precisa acompanhar mudanças rápidas, aproximações sonoras e um impulso que parece conduzir um termo ao seguinte. Há prazer nessa materialidade: a poesia também acontece no trabalho físico de pronunciar.

Menestrel termina com o silêncio de quem fala, depois de acompanhar a voz até uma foz. A interrupção não apaga o que foi dito. O poema deixa a sensação de que uma palavra pode continuar trabalhando na consciência de quem a ouviu.

Desejo, vulnerabilidade e a pressão de ser outra pessoa

Em Serpente, fruto, árvore e nudez evocam o imaginário da queda e da descoberta. Lucas aproxima palavras ligadas a oferecer, sentir dor e duvidar: o gesto de entregar alguma coisa ao outro convive com a exposição de quem se entrega.

Os espaços entre os versos também pedem atenção. A disposição na página interfere no caminho dos olhos e introduz intervalos entre as palavras. Ler envolve perceber essas distâncias, voltar a uma associação e testar como um sentido muda quando encontra o seguinte.

Já Quam minimum credula postero se organiza pela insistência de uma pergunta. O sujeito precisa reiterar seu cuidado, expor feridas e justificar a própria identidade diante de uma expectativa exterior. O poema faz sentir o desgaste de ter de demonstrar continuamente algo que deveria poder existir sem essa cobrança.

Essa passagem aproxima o livro de uma experiência reconhecível: o cansaço de ser interpretado a partir do que os outros esperam. O íntimo encontra aqui uma dimensão social. A voz tenta se apresentar, mas encontra exigências anteriores à sua própria fala.

Quem é Lucas Henrique Basilio

Lucas Henrique Basilio nasceu em Curitiba, em 1998. Estreou em livro com Suíte Barroca, que autopublicou em 2024 sob o selo AlgoLírica. O Ano do Cavalo dá continuidade à sua trajetória na poesia. No Instagram, o escritor assina @lucashenriquebasilio.

Nos trechos de O Ano do Cavalo, a elaboração sonora convive com situações de ameaça e vulnerabilidade. A pesquisa de linguagem de Lucas alcança tanto a paisagem quanto a experiência íntima: um rio deixa de acolher a vida, uma voz atravessa o medo, alguém procura sustentar a própria identidade.

Orelha verde de O Ano do Cavalo com retrato em preto e branco de Lucas Henrique Basilio e sua nota biográfica.Crédito da imagem: Divulgação / Editora Patuá
A orelha do livro apresenta o poeta curitibano e menciona sua estreia, Suíte Barroca, publicada em 2024.

Como começar a ler O Ano do Cavalo

O poema 20 concentra a ameaça contra o rio; Menestrel põe a voz em movimento; Serpente aproxima desejo e descoberta. O leitor pode começar pelo assunto que mais o inquieta. Os trechos deixam ouvir diferentes registros de Lucas, da concisão de uma imagem à cadência de uma pergunta repetida.

A leitura pode ganhar com duas passagens. Na primeira, acompanhar o movimento e a sensação; na segunda, reparar nos verbos, nas repetições e nos cortes. Em poesia, um detalhe que parecia apenas sonoro pode mudar a interpretação de uma imagem inteira.

Nos versos de Lucas, a precisão do som convive com o incômodo. A água pode trazer a morte; a fala procura atravessar o medo; alguém insiste em dizer quem é diante de quem espera outra pessoa. O Ano do Cavalo começa a se revelar nessas tensões, que os trechos públicos apresentam e a leitura completa poderá aprofundar.

Onde comprar O Ano do Cavalo

Em Menestrel, a palavra se acende como força feixe facho de luz. O verso faz da escrita uma presença que insiste no escuro. Se algo dessa voz ficou com você, continue a leitura nas páginas de O Ano do Cavalo.

O Ano do Cavalo, de Lucas Henrique Basilio, está disponível na Editora Patuá. Compre seu exemplar no site da editora.

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