Uma mulher leva socos no metrô. Um casal com adesivos de Lula é cercado e perseguido. Estudantes têm materiais arrancados de dentro da universidade. Um deputado exibe uma arma diante de militantes adversários. Na campanha eleitoral de 2026, a violência atribuída ao bolsonarismo ultrapassou o confronto verbal e alcançou ruas, estações, espaços de campanha e salas de aula.
Esta reportagem reúne 12 episódios de agressão, ameaça ou intimidação ligados a apoiadores, grupos ou agentes bolsonaristas nas fontes consultadas, entre 28 de setembro e 25 de outubro. A seleção inclui registros audiovisuais, relatos de vítimas, cobertura presencial de jornalistas, notas universitárias e uma decisão da Justiça Eleitoral. Cada caso tem sua fonte e seu estágio de apuração identificados.
O conjunto permite olhar para um problema concreto: a tentativa de tornar perigoso expressar apoio à esquerda, distribuir material de campanha ou organizar estudantes. Exibir uma bandeira, vestir vermelho ou manter um mural político não deveria transformar ninguém em alvo. O direito de criticar uma candidatura e o de se mobilizar em favor de outra dependem dessa liberdade.
Os relatos têm diferentes graus de confirmação. Em alguns, há participantes identificados e admissão de parte da conduta; em outros, a atribuição vem de uma vítima, de uma entidade ou de um documento ainda sob investigação. O que segue é uma seleção documentada, não um total nacional nem uma contagem de condenações.
1. Arma e spray de pimenta diante de militantes do PSOL no Rio
Em 28 de setembro, o deputado estadual Alexandre Knoploch, do PL, se envolveu em um confronto próximo ao comitê de Flávio Serafini, do PSOL, na Tijuca. Segundo os elementos apresentados à Justiça Eleitoral, houve uso de spray de pimenta contra pessoas na calçada, exibição de arma e ameaças. A decisão registra também relatos de ofensas misóginas contra Maria de Lourdes do Carmo, candidata à suplência do Senado.
Crédito da imagem: Reprodução / via ICL NotíciasEm 1º de outubro, o colegiado do TRE-RJ referendou medidas cautelares e autorizou inquérito da Polícia Federal. A restrição temporária ao porte e transporte de armas foi fixada até 5 de outubro. Fonte: comunicado do próprio tribunal.
Knoploch, identificado como bolsonarista na cobertura, reconheceu ter usado spray e alegou que se sentiu ameaçado por integrantes da campanha adversária. A defesa integra a narrativa do caso; a existência do inquérito não equivale a uma condenação. Veja a versão do parlamentar e a manifestação do Ministério Público.
2. Ameaças contra estudantes da Uenf em grupo bolsonarista
Em Campos dos Goytacazes, o diretório municipal do PT e o Sindipetro-NF denunciaram mensagens contra estudantes de esquerda da Universidade Estadual do Norte Fluminense. Segundo os denunciantes, as conversas circularam em um grupo chamado “Campistas com Bolsonaro” e mencionavam agressões e um possível ataque com explosivos contra participantes de uma atividade estudantil.
A denúncia foi levada à 134ª Delegacia de Polícia. A reitoria repudiou ameaças e informou medidas para apurar os fatos e proteger a comunidade. A denúncia tratava de ameaças de ataque, sem notícia de explosão executada nesse episódio. Fonte: Brasil de Fato, com manifestação dos denunciantes e da universidade.
3. Mensagens sobre incendiar a UFF e atacar estudantes
A Universidade Federal Fluminense encaminhou à Polícia Federal, em 8 de outubro, mensagens com ameaças contra seus espaços e estudantes. A Folha teve acesso a conversas no grupo “Juntos com Bolsonaro”, com referências a incendiar a instituição e agredir participantes de manifestações. A universidade solicitou reforço da segurança e ampliou a vigilância interna. Fonte: reportagem da Folha.
Crédito da imagem: Reprodução / via Diário CariocaO Diário Carioca também informou ter recebido capturas e áudios com ameaças à universidade e a uma liderança estudantil. O grupo de apoio não era um canal oficial da campanha; alegações dos participantes de que falavam com Flávio não demonstram coordenação do candidato. Um suposto autor disse a um estudante que a mensagem era brincadeira, segundo a Folha. Registros obtidos pelo Diário Carioca.
4. Destruição de materiais estudantis na UFRR em 16 de outubro
Na noite de 16 de outubro, a blogueira Athaally e o deputado estadual Marcinho Belota, do PL, participaram da retirada e destruição de material político no espaço de Direito da Universidade Federal de Roraima. A reportagem do
Brasil de Fato identifica os envolvidos como bolsonaristas e descreve registros do episódio. O material continha críticas a Flávio Bolsonaro. Fonte: apuração do Brasil de Fato.
Crédito da imagem: Reprodução / via Brasil de FatoA própria UFRR repudiou a invasão e a depredação do centro acadêmico, anunciando providências administrativas e judiciais. Nota institucional de 17 de outubro.
5. Novo grupo interrompe aula e arranca materiais na UFRR
Em 17 de outubro, outro grupo entrou em espaços de Direito e no Centro de Ciências Humanas da UFRR, arrancou materiais e interrompeu uma aula, segundo o Brasil de Fato. A professora ouvida pelo veículo relatou a abordagem agressiva; há denúncia de um homem aparentemente armado. A alegação de “propaganda irregular” foi utilizada por um dos participantes para justificar a ação. Fonte: entrevista e registros apresentados na reportagem.
Crédito da imagem: Reprodução / via Brasil de FatoEste é um episódio distinto do anterior, ocorrido em outro dia e com outros participantes. Questionar um material de campanha não concede a um grupo o direito de substituir os procedimentos institucionais pela força.
Veja o registro do episódio na UFRR, publicado pelo Brasil de Fato (crédito: Reprodução).
6. Socos contra uma mulher na estação Butantã
Em 18 de outubro, Diogo Freire Estevão foi filmado dando socos em uma mulher de camiseta vermelha na estação Butantã, em São Paulo. O Metrópoles o identificou como participante bolsonarista do ato pró-Flávio e o entrevistou. A vítima relatou ter sido hostilizada enquanto aguardava um carro por aplicativo. O empresário alegou legítima defesa e afirmou que não havia percebido inicialmente que se tratava de uma mulher. Fonte: entrevista, vídeo e relato policial citados pelo Metrópoles.
Crédito da imagem: Reprodução / via MetrópolesA concessionária disse que os envolvidos receberam atendimento e não quiseram registrar ocorrência naquele momento; a reportagem posteriormente citou um boletim da vítima. A entrevista ao Metrópoles também registrou a versão do agressor e o relato da vítima, que descreveu ter sido atacada sem motivo.
7. Conflito em Pinheiros atribuído por Boulos a um ataque bolsonarista
Outro registro de 18 de outubro mostra um homem em conflito com mulheres na estação Pinheiros, contido por uma profissional de segurança. Guilherme Boulos compartilhou o vídeo e atribuiu o episódio a um ataque bolsonarista. A ViaMobilidade confirmou que seus agentes intervieram e ofereceram primeiros socorros e encaminhamento à delegacia, recusados pelas partes. Fonte: registro e resposta da concessionária ao Metrópoles.
Crédito da imagem: Reprodução / via MetrópolesA atribuição política, neste caso, é de Boulos e dos relatos divulgados, não uma conclusão da concessionária. A entrada é separada de Butantã porque se trata de outra estação e outro registro de intervenção.
8. Casal com adesivos de Lula é cercado e perseguido na Paulista
A equipe do JOTA presenciou e filmou a hostilização de um casal na dispersão de um ato pró-Flávio Bolsonaro na Avenida Paulista, em 18 de outubro. Vitória Viana e Matheus Fernando usavam adesivos de Lula e foram cercados por participantes da manifestação. O veículo relata perseguição até a proximidade da casa do casal e proteção da Polícia Militar.
Os jornalistas também foram hostilizados: manifestantes derrubaram o celular usado na cobertura e tentaram impedir a filmagem. O casal disse ao JOTA que estava a caminho do metrô e que reagiu às provocações. Fonte: cobertura presencial de Iago Bolívar, do JOTA.
9. Ato bolsonarista termina em violência e danos na UFRN
Em 19 de outubro, uma mobilização de apoiadores de Flávio Bolsonaro, com participação de parlamentares do PL, terminou em confrontos no Campus Central da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. O ANDES-SN relatou agressões a estudantes e danos. A UFRN confirmou ameaças à comunidade, prejuízos ao patrimônio e interrupção de aulas e atividades administrativas em uma manifestação sem autorização institucional. Relato do ANDES-SN e nota da UFRN.
Crédito da imagem: Reprodução / X / @LeoLibertino · via Correio BrazilienseA CNTE também repudiou os episódios. As responsabilidades por cada agressão precisam ser individualizadas; a atribuição da mobilização a grupos bolsonaristas não resolve automaticamente as versões sobre o início do confronto. Manifestação da CNTE.
10. Mensagens sobre armas e agressões contra a UFMT
Em 22 de outubro, a associação de docentes da UFMT denunciou mensagens atribuídas a um grupo bolsonarista que mencionavam comparecer armado à universidade para intimidar estudantes e professores. O Coletivo Para Todos informou ter enviado os registros ao Ministério Público Federal. Nota da Adufmat-Ssind.
Crédito da imagem: Reprodução / via Olhar DiretoO Olhar Direto publicou trechos e a resposta de uma organizadora da mobilização de direita. Ela negou intenção de confronto e menção a armas de fogo, disse que referências a ferramentas tinham outra finalidade e reconheceu mensagens que classificou como brincadeiras inadequadas. A denúncia e essa resposta devem acompanhar a apuração, sem apresentar o confronto ameaçado como um ataque já executado. Registros e manifestação da organização.
11. Iara Pimentel ferida durante carreata em Montes Claros
A vereadora Iara Pimentel, do PT, foi atingida no rosto por um objeto durante um ato pró-Lula em Montes Claros, em 24 de outubro. O deputado Paulo Guedes atribuiu o arremesso de objetos a apoiadores de Flávio Bolsonaro. A vereadora foi socorrida e recebeu alta; no dia seguinte, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, confirmou que a corporação apuraria o ataque. Relato de Paulo Guedes e confirmação da apuração pela PF.
A nota policial não estabelecia a identidade de quem lançou o objeto. O boletim também registra a denúncia de agressão de um apoiador do PL por alguém do grupo adversário. Relatar essa informação não apaga o ataque à vereadora; preserva o quadro que precisa ser investigado. Fonte: registro e nota da PM publicados pelo Estado de Minas.
12. Pastor denuncia agressão e destruição de bandeira em Juara
Na noite de 25 de outubro, o pastor Bertinetti Perroni Vasque da Silva divulgou um vídeo de uma agressão enquanto estava de motocicleta com uma bandeira de Lula em Juara, Mato Grosso. O Primeira Página descreveu a aproximação de dois homens e a destruição da bandeira. A vítima atribuiu a ação a eleitores de Flávio Bolsonaro. Fonte: registro divulgado pelo pastor e reportagem do Primeira Página.
Crédito da imagem: Reprodução / Instagram / pastor Bertinetti · via Primeira PáginaO relato mostra que a intimidação também pode se dirigir a quem apenas circula com um símbolo de sua preferência eleitoral. A identificação individual dos envolvidos não foi apresentada como conclusão policial nas fontes consultadas.
O padrão que os episódios expõem
Os casos não são iguais, mas têm pontos de contato: militantes e eleitores intimidados por expressar preferência política; materiais críticos a uma candidatura retirados pela força; universidades ameaçadas por sua mobilização; profissionais da imprensa impedidos de registrar o que acontece. Em comum, a possibilidade de transformar a divergência em um custo físico ou psicológico para quem se organiza à esquerda.
A crítica ao bolsonarismo, aqui, parte desses acontecimentos e das fontes que os documentam. Não depende de atribuir a esse campo todo crime ocorrido em uma eleição. Quando a vinculação aparece em uma admissão, em um registro, na participação em um ato ou em uma denúncia identificada, ela precisa ser exposta com clareza — e com a força que o fato comporta.
Também não há, no material reunido, prova de que Jair Bolsonaro ou Flávio Bolsonaro tenham ordenado esses 12 episódios. A responsabilidade de um apoiador, de um grupo ou de um parlamentar não é automaticamente a responsabilidade pessoal do dirigente político. Investigar eventual coordenação exige evidências próprias.
O caso de Marcelo, em Santos, segue fora desta contagem
O engenheiro Marcelo de Oliveira Rocha foi agredido ao deixar um ato pró-Lula em Santos. A SSP informou que seus pertences foram roubados e que investigava autoria e motivação. O ICL Notícias, em atualização de 26 de outubro às 22h43, informou morte cerebral por relato de uma pessoa próxima à família. O caso é grave, mas o vínculo dos agressores com o bolsonarismo não estava estabelecido nas fontes consultadas; por isso, não foi incluído nos 12. Informação da SSP via UOL e atualização do ICL.
Como os 12 episódios foram selecionados
A Ulti reuniu fontes públicas com registro audiovisual, documento, manifestação institucional ou relato identificado. Não realizou entrevistas próprias nem teve acesso integral aos inquéritos. A seleção cobre episódios conhecidos entre 28 de setembro e 25 de outubro; esta revisão foi feita em 27 de outubro de 2026, horário de Brasília.
A unidade é o episódio identificável por data, local e alvo. Os dois casos da UFRR foram separados porque aconteceram em dias distintos e com diferentes participantes. Mensagens da mesma sequência foram agrupadas; a perseguição ao casal e a intimidação da equipe do JOTA não foram divididas. Não foram incluídos o incêndio da UFPE, sem vínculo criminoso bolsonarista comprovado, nem casos cuja autoria política continuava indeterminada.
O número desta manchete corresponde aos episódios descritos, com fontes e limites de cada atribuição. Não foi usado como se fosse de autoria bolsonarista o balanço nacional que reúne violência política de diferentes origens. Novos documentos e conclusões poderão exigir correções ou atualizações.







