No primeiro Boletim Focus depois da reeleição de Lula, o mercado financeiro refez as contas: o dólar de fim de ano subiu de R$ 5,05 para R$ 5,34 em uma semana, a Selic projetada para dezembro passou de 13,25% para 13,5%, a inflação de 2026 foi para 5,22% e o crescimento do PIB caiu pela terceira semana seguida, para 1,76%. São projeções de bancos e consultorias, não decisões do Banco Central. Mesmo assim, elas dizem o que o mercado espera para o crédito, para o preço da comida e para o dólar, justamente na véspera da decisão do Copom.
O Focus sai toda segunda-feira, mas foi adiado para esta terça-feira (3) por causa do feriado de Finados. A Ulti leu o que o Banco Central e a Agência Brasil publicaram e separa abaixo o que é número confirmado, o que é aposta e o que ainda vai depender do Copom, que se reúne em 3 e 4 de novembro.
O que mudou no primeiro Focus depois da eleição
O Relatório Focus é uma pesquisa semanal do Banco Central com instituições do mercado. O próprio BC avisa que as projeções são do mercado, não dele. Segundo a Agência Brasil, este é o primeiro boletim depois do resultado das eleições presidenciais, e a direção foi a mesma em quase tudo: mais juros, mais inflação, mais dólar e menos crescimento.
- Selic no fim de 2026: 13,5%, ante 13,25% na semana anterior;
- IPCA de 2026: 5,22%, ante 5,19% uma semana antes e 5,01% quatro semanas antes;
- PIB de 2026: 1,76%, ante 1,8% na semana passada, a terceira revisão para baixo seguida;
- Dólar no fim de 2026: R$ 5,34, ante R$ 5,05 uma semana antes.
Crédito da imagem: Marcello Casal Jr/Agência BrasilA conta que mais chama atenção é a do câmbio. Em uma semana, a projeção para o dólar de dezembro subiu R$ 0,29, ou cerca de 5,7%, cálculo da Ulti a partir dos números da Agência Brasil. Foi a semana em que a moeda americana saltou depois do segundo turno, como a Ulti contou em Dólar a R$ 5,44 e Bolsa despenca 18%. O Focus mostra que o susto saiu das telas e entrou nas planilhas dos economistas.
Dólar de fim de ano: de R$ 5,05 para R$ 5,34
Há um detalhe que o título de qualquer manchete costuma esconder. A projeção de R$ 5,34 para o fim do ano é menor do que o fechamento de sexta-feira (30), de R$ 5,446, o maior do ano, segundo a Agência Brasil. Ou seja, o mercado não está dizendo que o dólar vai disparar de novo. Está dizendo que o patamar de dezembro deve ficar mais alto do que se imaginava antes da eleição, mas um pouco abaixo do pico da semana passada.
Para 2027 e 2028, o Focus projeta o dólar em R$ 5,40 nos dois anos. A Ulti não tem, até esta checagem, a cotação desta terça-feira, depois da reabertura da B3, e por isso não compara o Focus com o preço de hoje. Quem acompanha a moeda deve conferir a cotação em fonte primária, como o Banco Central.
O que o dólar mais alto muda na prática, na avaliação de economistas ouvidos por jornais na semana passada, é a pressão sobre produtos com preço internacional, como combustíveis, trigo e eletrônicos. O repasse, porém, não é automático nem imediato. Depende de estoques, contratos e concorrência, e a Ulti já explicou esse mecanismo na matéria sobre o fechamento da semana.
Selic em 13,5%: por que o mercado vê um corte a menos
A Selic hoje está em 13,75%, depois da redução anunciada em setembro, segundo a Agência Brasil. Se o mercado projeta 13,5% para dezembro, isso equivale a um corte de 0,25 ponto percentual até o fim do ano. Na semana passada, a projeção de 13,25% equivalia a dois cortes de 0,25 ponto. Em outras palavras: de uma semana para outra, o mercado passou a esperar uma redução a menos.
A Agência Brasil lembra que 13,5% é o mesmo patamar estimado quatro semanas atrás, ou seja, a semana passada foi a exceção, não a regra. Para 2027 e 2028, as projeções são de Selic em 12,5% e 11%. Os números ajudam a entender o clima, mas não valem como promessa: o Banco Central decide a taxa no Copom, olhando inflação, expectativas e atividade. O comunicado da 281ª reunião do Copom está no site do Banco Central.
Na prática, juros altos por mais tempo significam crédito caro por mais tempo: cartão, cheque especial e financiamento. A Ulti detalhou o que está em jogo para dívidas e emprego em Copom de novembro: a decisão que pesa no crédito e no emprego.
Inflação de 5,22%: a comida segura a conta
A projeção do IPCA de 2026 chegou a 5,22%, acima do teto de tolerância da meta, de 4,5%. A comida explica boa parte do problema. Na prévia da inflação de outubro, o IPCA-15 subiu 0,32%, menos da metade dos 0,70% de setembro, mas o acumulado em 12 meses chegou a 4,62%, segundo o IBGE. A alimentação no domicílio subiu 1,01% no mês, e os maiores aumentos foram de tomate (24,54%), cebola (13,63%), batata-inglesa (10,96%) e arroz (5,80%), conforme a Agência Brasil.
Crédito da imagem: Valeria Boltneva / PexelsO alívio do mês veio da conta de luz: com a volta da bandeira verde, a energia elétrica residencial caiu 0,89%. As passagens aéreas também ficaram 9,24% mais baratas, em média. Já os combustíveis subiram 1,2%, puxados pelo diesel (3,70%), pelo etanol (2,73%) e pela gasolina (0,92%).
O economista Roberto Luis Troster, da Fipe, resumiu o quadro ao comentar a prévia: “A desaceleração mensal é bem-vinda, mas ainda não demonstra uma trajetória consistente de queda da inflação”. Para 2027, o Focus projeta inflação de 4,76%, e para 2028, de 4%. O IPCA-15 não é o IPCA oficial, e o número fechado de outubro só sai depois.
PIB em 1,76%: a terceira revisão para baixo
Pela terceira semana consecutiva, o mercado cortou a estimativa de crescimento da economia em 2026, agora em 1,76%. Para 2027, o Focus projeta 1,2%, e para 2028, 1,8%. A queda é pequena em cada semana, mas tem um sentido claro: juros altos esfriam o crédito, e o crédito esfria o consumo e o investimento.
Esse cenário convive com dados de emprego fortes. O IBGE divulgou, em 30 de outubro, desemprego de 5,2% no trimestre até setembro, o menor para o período desde 2012, como a Ulti registrou na cobertura da semana passada. O retrato do Focus, portanto, é de uma economia que ainda gera trabalho, mas com ritmo de crescimento menor e custo de dinheiro alto.
Copom na quarta: o que o Focus não decide
Crédito da imagem: Rafa Neddermeyer/Agência BrasilO Focus não decide nada. Quem decide é o Copom, no Banco Central, e o anúncio da nova Selic sai ao fim da reunião de 3 e 4 de novembro. Na semana passada, segundo o que a Ulti reuniu na cobertura do dólar, as opções de Copom da B3 indicavam 72% de chance de manutenção em 13,75% e 26% de corte. O Focus de hoje, ao projetar 13,5% em dezembro, ainda deixa espaço para um corte de 0,25 ponto até o fim do ano, mas não diz quando ele viria.
Por isso, vale ler o boletim como termômetro, não como previsão. Se o Copom mantiver a taxa, o mercado tende a ajustar de novo as projeções nas próximas segundas-feiras. Se cortar, o Focus ganha outro desenho. A Ulti acompanha a decisão e atualiza a cobertura quando o comunicado sair.
Confirmado x em aberto
Confirmado:
- O Focus desta terça-feira (3) é o primeiro depois do resultado das eleições presidenciais, segundo a Agência Brasil;
- Projeção da Selic para o fim de 2026: 13,5%, ante 13,25% na semana passada. A Selic atual é 13,75%;
- Projeção do IPCA de 2026: 5,22%, acima do teto de tolerância da meta, de 4,5%;
- Projeção do PIB de 2026: 1,76%, terceira queda seguida;
- Projeção do dólar no fim de 2026: R$ 5,34, ante R$ 5,05 uma semana antes;
- O IPCA-15 de outubro foi de 0,32%, com 4,62% em 12 meses, segundo o IBGE.
Em aberto:
- A decisão do Copom: o Focus não antecipa se a Selic será mantida ou cortada na quarta-feira (4);
- A cotação do dólar após a reabertura da B3: a Ulti não checou o preço de hoje;
- Quanto do dólar alto vai chegar de fato aos preços do mercado e em quanto tempo;
- O IPCA oficial de outubro, que ainda não foi divulgado;
- Quais medidas fiscais o governo anunciará e como o mercado vai reagir a elas.
O que fazer com essas informações no seu bolso
O Focus fala com o mercado, mas o efeito aparece no caixa do mercado de bairro. Algumas atitudes práticas, sem nenhuma recomendação de investimento: comparar preços de itens que oscilam muito, como tomate, cebola e batata; evitar juros do cartão rotativo e do cheque especial enquanto o crédito está caro; e, se houver dívida, procurar a renegociação antes de a conta crescer. O atendimento humano passou a ser obrigatório no SAC, o que ajuda na negociação, como mostramos em Chega de falar com robô.
Para quem quer acompanhar a economia sem abrir dezenas de abas, a Ulti funciona como página inicial da web aberta e reúne, em um só lugar, os sites e MiniApps do dia a dia, de cotações a notícias e serviços públicos. A proposta está no guia o que é a Ulti e na análise sobre um WeChat brasileiro, o gov.br e os MiniApps. O contexto político está em Lula é reeleito em 2026.
Perguntas frequentes sobre o Boletim Focus
O que é o Boletim Focus?
É um relatório semanal do Banco Central que reúne as projeções de instituições do mercado financeiro para inflação, juros, câmbio e crescimento. As projeções são do mercado, não do BC.
O que o Focus desta terça-feira mostrou?
Selic de 13,5% no fim de 2026, IPCA de 5,22%, PIB de 1,76% e dólar de R$ 5,34, segundo a Agência Brasil. Foi o primeiro boletim depois da eleição.
O dólar vai chegar a R$ 5,34?
É a projeção do mercado para o fim de 2026, não uma garantia. Ela é menor do que o fechamento de sexta-feira (30), de R$ 5,446, e a Ulti não checou a cotação de hoje.
A Selic vai cair?
O mercado espera um corte de 0,25 ponto até dezembro, o que levaria a taxa de 13,75% a 13,5%. Quem decide é o Copom, em reunião de 3 e 4 de novembro.
Por que a projeção de inflação subiu?
A alta é pequena, de 5,19% para 5,22%, e vem de um quadro em que alimentos e dólar pressionam os preços. O IPCA-15 de outubro mostrou tomate, cebola, batata e arroz em alta.
O Focus é recomendação de investimento?
Não. É uma pesquisa de expectativas e serve para entender o clima do mercado. Decisões de investimento dependem do seu perfil e de profissional habilitado.
Fontes e créditos. Checagem feita em 3 de novembro de 2026, no início da tarde (horário de Brasília). Os números do Focus saíram da reportagem da Agência Brasil publicada na mesma data, com consulta à página do Relatório Focus no site do Banco Central. Os dados do IPCA-15 de outubro vieram do IBGE e da Agência Brasil. A Selic de 13,75% e as demais referências ao Copom foram lidas na Agência Brasil e no site do BC. As opções de Copom e o fechamento do dólar vieram da cobertura anterior da Ulti. O cálculo de alta de cerca de 5,7% na projeção do dólar é da Ulti, a partir dos números da Agência Brasil. Este texto não é recomendação de investimento. Imagens: capa, consumidores na fila de um atacadista em Brasília, Rafa Neddermeyer/Agência Brasil, 12 de junho de 2026; cédulas e calculadora, Marcello Casal Jr/Agência Brasil, foto de arquivo; prédio do Banco Central, Rafa Neddermeyer/Agência Brasil, 26 de outubro de 2023, foto de arquivo; tomates em banca de mercado, Valeria Boltneva / Pexels, Licença Pexels, foto ilustrativa feita na Estônia. Todas as imagens foram convertidas para WebP.
Ulti Notícias faz parte da plataforma Ulti, citada nesta matéria.




