A Bolsa brasileira perdeu 18,12% em uma única semana, a pior queda desde março de 2020, e o dólar a R$ 5,44 fechou a sexta-feira (30) no maior valor de 2026, depois de subir 9,15% em cinco pregões, a maior alta semanal desde a crise de 2008. O gatilho foi a reeleição de Lula, em 25 de outubro, que desfez apostas de investidores em uma vitória de Flávio Bolsonaro e reacendeu a dúvida sobre o ajuste fiscal. Hoje, segunda-feira (2), a B3 ficou fechada por causa do feriado de Finados; o mercado reabre amanhã, e o Copom decide a Selic na quarta-feira (4).
O susto nas telas ainda não é, por si só, preço mais caro no mercado ou no posto. O que existe até agora são projeções de economistas que revisaram a inflação para cima, um Banco Central dizendo que o sistema financeiro está sólido e um mercado de trabalho com números recordes. A Ulti reuniu o que está confirmado, o que ainda é aposta e o que o dólar alto pode, de fato, mudar na vida de quem não opera na Bolsa.
Dólar a R$ 5,44 e Bolsa em queda: a semana em números
Os números fechados vêm da cobertura da Agência Brasil sobre o fechamento de sexta-feira (30) e da Agência Brasil sobre o primeiro pregão pós-eleição. Na segunda-feira (26), o dólar subiu 8,21% e fechou a R$ 5,403, a maior alta percentual em um dia desde 13 de janeiro de 1999. Na máxima da manhã, chegou a R$ 5,6049. No mesmo dia, o Ibovespa caiu 13,88%, aos 176.608 pontos, e a B3 acionou o circuit breaker, mecanismo que interrompe as negociações em quedas fortes. O volume foi de R$ 88,6 bilhões, contra uma média diária de cerca de R$ 25 bilhões.
- Dólar na semana: alta de 9,15%, a R$ 5,446 na sexta, o maior fechamento do ano e a maior valorização semanal desde outubro de 2008;
- Ibovespa na semana: queda de 18,12%, aos 167.921,80 pontos, depois de cinco pregões seguidos de baixa. Em março de 2020, a queda semanal havia sido de 18,88%;
- Em outubro: dólar com alta de 5,27% e Ibovespa com queda de 9,88%, o pior mês da Bolsa desde junho de 2022;
- Dinheiro estrangeiro: dados da B3 apontaram retirada líquida de quase R$ 7,6 bilhões do mercado secundário de ações nos três primeiros pregões da semana.
Crédito da imagem: cottonbro studio / PexelsPor que o mercado reagiu assim
Há três explicações em cima da mesa, e elas se somam. A primeira é a troca de posições: parte relevante do mercado esperava a vitória de Flávio Bolsonaro, que liderou o primeiro turno, e precisou desfazer apostas. Segundo a reportagem do O Globo, parte da desvalorização do real é esse reposicionamento; a outra parte reflete a baixa expectativa de um ajuste fiscal robusto no novo governo.
A segunda é o cenário externo. A Agência Brasil lembra que, na sexta, as ações de tecnologia e de inteligência artificial caíram nos Estados Unidos (o S&P 500 recuou 1,82%) e o dólar subiu contra moedas de países emergentes. Houve ainda busca por proteção cambial antes do fim de semana prolongado de Finados. A terceira é a incerteza sobre quem vai comandar a Fazenda no novo mandato e quais medidas virão.
O governo defende que a reação foi passageira. Em 27 de outubro, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que “é natural que uma ‘troca de posições’ cause um desarranjo [temporário] no mercado”, conforme a Agência Brasil. O Tesouro Nacional recomprou mais de R$ 14,8 bilhões em títulos públicos no dia 26 e anunciou nova recompra de NTN-B no dia seguinte, medida extraordinária para conter oscilações. Segundo o R7, a avaliação de interlocutores do governo é que a reação do mercado foi exagerada.
O que pode ficar mais caro e o que ainda é só projeção
O dólar pesa sobre produtos que dependem de insumos importados ou que têm preço internacional, como combustíveis, trigo, soja e milho, eletrônicos e medicamentos. A Folha ouviu economistas que já revisaram a inflação: a 4intelligence subiu a projeção do IPCA de 2026 de 5,18% para 5,31% e a de 2027 de 4,23% para 5%; a MB Associados prevê 5,2% e 4,5%, respectivamente. A meta do Banco Central é 3%, com tolerância de 1,5 ponto para cima ou para baixo. Segundo O Globo, a consultoria Buysidebrazil subiu o IPCA de 2027 de 3,9% para 4,7% e a previsão para o dólar no fim de 2026 e de 2027, de R$ 4,90 para R$ 5,40.
Esses números são estimativas, não medições. O repasse do câmbio aos preços não é automático nem proporcional: depende de estoques, contratos, impostos e concorrência, e leva semanas ou meses. O próprio dólar de 2026 ajuda a calibrar o susto: mesmo no maior patamar do ano, a moeda acumula apenas 0,81% de alta desde janeiro, segundo a Agência Brasil.
Crédito da imagem: Christian Naccarato / PexelsA pressão sobre a comida, aliás, não começou com a eleição. O IPCA-15 de outubro, citado pela Folha, mostrou alimentação em casa subindo 1,01%, a maior variação para um mês de outubro em cinco anos, com tomate em alta de 24,54%, cebola de 13,63%, batata-inglesa de 10,96% e arroz de 5,8%. O economista Sergio Vale, da MB Associados, associa parte da alta aos efeitos iniciais do El Niño e às chuvas fortes no Sul e no Sudeste. Já a passagem aérea tinha ficado mais barata no índice, mas a Petrobras anunciou alta de 7,2% no querosene de aviação em novembro, depois de 11,76% em outubro, refletindo a alta das cotações internacionais, em meio a tensões no Oriente Médio.
O contrapeso: emprego recorde e dólar ainda perto do início do ano
A economia real mostra um retrato diferente do das telas. O IBGE divulgou em 30 de outubro que a taxa de desocupação ficou em 5,2% no trimestre encerrado em setembro, a menor para esse período desde o início da série, em 2012. A população ocupada chegou a 103,6 milhões, recorde, e o rendimento real habitual foi de R$ 3.790, alta de 3,6% em um ano. A massa de rendimentos, de R$ 387,5 bilhões, também é a maior da série.
Mesmo com a queda da semana, o Ibovespa ainda acumula alta de cerca de 4% em 2026, cálculo da Ulti a partir da valorização de 9,61% no ano informada pela Agência Brasil em 26 de outubro. E o Banco Central afirmou, em 27 de outubro, que não vê risco relevante para a estabilidade financeira. O mesmo relatório traz um alerta: os ativos problemáticos das famílias estão no maior nível desde 2012 na maioria das modalidades de crédito, e o comprometimento da renda com dívidas é o maior em 21 anos. Ou seja, o bolso do brasileiro já chega apertado a esse choque.
Fazenda e ajuste fiscal: o que o mercado quer ver
O estopim da desconfiança é fiscal. A proposta de Orçamento de 2027 prevê superávit primário de R$ 73,2 bilhões (0,5% do PIB), mas foi elaborada antes de medidas da campanha. Segundo o R7, o reajuste do Bolsa Família pode exigir entre R$ 23,6 bilhões e R$ 24,9 bilhões adicionais em 2027, e o governo estima mais de R$ 18,7 bilhões em débitos abrangidos pelo Prospera MEI. O Ministério do Planejamento já indicou que pretende remanejar cerca de R$ 20 bilhões.
Durigan afirmou que o compromisso é com a “responsabilidade fiscal” e que “já temos várias medidas sendo estudadas e algumas prontas”, incluindo ampliar a parcela do Orçamento que pode ser contingenciada, o que depende do Congresso. O anúncio aguarda a definição da equipe econômica do novo mandato. Segundo a Reuters, os nomes mais citados por fontes para a Fazenda são o vice-presidente Geraldo Alckmin e o governador do Piauí, Rafael Fonteles, sem descartar a permanência de Durigan; nada foi oficializado. A Folha acrescenta que há impasse interno, porque Lula resiste a propor cortes mais robustos que poderiam configurar “estelionato eleitoral”. Lula e Alckmin tomam posse em 5 de janeiro. A Ulti já explicou o resultado da eleição em Lula é reeleito em 2026: os votos, a virada e o quarto mandato.
Copom na quarta: o que muda para crédito e dívidas
Crédito da imagem: Banco Central do Brasil / CC BY 2.0A decisão de juros é o próximo teste. Segundo O Globo, antes do segundo turno a maioria esperava novo corte de 0,25 ponto, mas as opções de Copom da B3 fecharam sexta-feira com 72% de chance de manutenção da Selic em 13,75% e 26% de corte. O Itaú espera que o comitê interrompa o ciclo de cortes, depois de cinco reduções de 0,25 ponto desde março; o Pine pondera que manter agora não significa encerrar o ciclo. O IPCA em 12 meses até setembro está em 4,58%, acima do teto de tolerância de 4,5%.
Na prática, juros altos por mais tempo significam crédito caro por mais tempo: cartão, cheque especial e financiamentos. O calendário econômico do Estadão lembra que o Boletim Focus, adiado pelo feriado, sai amanhã (3) e deve mostrar o quanto as expectativas mudaram. A Ulti detalha o que está em jogo na decisão em Copom de novembro: a decisão que pesa no crédito e no emprego. Se você precisar renegociar uma dívida, lembre que o atendimento humano passou a ser obrigatório no SAC, como mostramos em Chega de falar com robô.
Confirmado x em aberto
Confirmado:
- Ibovespa com queda de 18,12% na semana encerrada em 30 de outubro, e dólar a R$ 5,446, alta de 9,15% no período;
- B3 fechada em 2 de novembro (Finados), com retomada na terça-feira, 3;
- Selic em 13,75%, com decisão do Copom na quarta-feira (4);
- Desemprego de 5,2% no trimestre até setembro, o menor para o período desde 2012;
- Ministro da Fazenda do novo mandato ainda não definido oficialmente.
Em aberto:
- Se o dólar e a Bolsa vão continuar se movendo na reabertura de amanhã, já que não houve pregão hoje;
- Qual será a decisão do Copom: manutenção é a aposta majoritária, mas não é certa;
- Quais medidas fiscais o governo vai anunciar e quando;
- Quanto do dólar alto vai chegar aos preços, e em quanto tempo: por ora, só há projeções de economistas, que divergem entre si.
Como acompanhar sem se perder no ruído
Em dias de volatilidade, boatos e prints correm mais rápido que os números. Vale conferir as cotações em fontes primárias, como o Banco Central, a B3 e o IBGE, e desconfiar de manchetes que misturam queda de um dia com tendência. Nada disso é recomendação de investimento: quem tem aplicações deve avaliar o próprio perfil e, se for o caso, conversar com um profissional habilitado.
Para não depender de dezenas de abas, a Ulti é uma plataforma brasileira que quer ser o sistema operacional da web: funciona como página inicial da web aberta e reúne em um só lugar os sites e MiniApps que você usa no dia a dia, como cotações, notícias e serviços públicos, sem depender de uma única loja de aplicativos ou rede social. Entenda a proposta no guia o que é a Ulti e na análise sobre um WeChat brasileiro, o gov.br e os MiniApps.
Perguntas frequentes sobre o dólar a R$ 5,44 e a queda da Bolsa
Quanto o dólar subiu depois da eleição?
Na semana após o segundo turno, o dólar subiu 9,15% e fechou a R$ 5,446 na sexta-feira (30), o maior valor de 2026. Só no primeiro pregão, em 26 de outubro, a alta foi de 8,21%, a maior em um dia desde janeiro de 1999.
A Bolsa funciona hoje, 2 de novembro?
Não. A B3 informou que não haveria negociação em 2 de novembro, feriado de Finados, e que as atividades voltam na terça-feira, 3 de novembro.
Por que o dólar subiu e a Bolsa caiu?
Porque investidores que apostavam na vitória de Flávio Bolsonaro precisaram rever posições, houve dúvida sobre o ajuste fiscal do novo governo e o cenário externo estava adverso, com queda de ações de tecnologia nos EUA.
O dólar alto vai encarecer os preços no Brasil?
Pode pressionar combustíveis, alimentos e produtos importados, e economistas já elevaram as projeções de inflação. Mas o repasse não é automático nem imediato, e ainda não há dado oficial mostrando alta de preços causada pela oscilação da última semana.
A economia brasileira está em crise?
Os indicadores divulgados mostram um quadro misto: desemprego de 5,2%, o menor para o período desde 2012, e renda em alta, mas também endividamento recorde das famílias e juros altos. O Banco Central afirmou não ver risco relevante para a estabilidade financeira.
O que o Copom deve decidir na quarta-feira?
A aposta majoritária do mercado, medida por opções da B3, é de manutenção da Selic em 13,75%. A decisão será anunciada ao fim da reunião de 3 e 4 de novembro e não está garantida.
Quem será o ministro da Fazenda em 2027?
Ainda não foi anunciado. Fontes ouvidas pela Reuters citam Geraldo Alckmin e Rafael Fonteles como favoritos, sem descartar a permanência de Dario Durigan.
Fontes e créditos.
Ulti Notícias faz parte da plataforma Ulti, citada nesta matéria. Fontes consultadas em 2 de novembro de 2026, por volta das 19h (horário de Brasília): Agência Brasil (fechamentos de 26 e 30 de outubro, Durigan, recompra do Tesouro e Relatório de Estabilidade Financeira), IBGE (PNAD Contínua de 30 de outubro), B3 (funcionamento no feriado de Finados), Folha, O Globo, Estadão, R7, Reuters (via UOL) e Folhapress (via Notícias ao Minuto). Valores do dólar são cotações de fechamento da sexta-feira (30); não houve pregão em 2 de novembro. As projeções de inflação citadas são de instituições e economistas, não do Banco Central; o cálculo de alta de cerca de 4% do Ibovespa no ano é da Ulti, a partir dos números da Agência Brasil. Este texto não é recomendação de investimento. Imagens: capa, gráfico de candles em queda, Alex Luna / Pexels, Licença Pexels (uso livre, sem atribuição obrigatória), foto ilustrativa e recortada; notas de dólar, euro e real, cottonbro studio / Pexels, Licença Pexels, recortada; carrinho em corredor de supermercado, Christian Naccarato / Pexels, Licença Pexels, foto ilustrativa feita na Itália e recortada; edifício-sede do Banco Central em Brasília, Banco Central do Brasil, via Wikimedia Commons, licença CC BY 2.0, recortada. Todas as imagens foram convertidas para WebP.




