Quem acordou nesta segunda-feira (2) querendo mexer no saldo do
Mercado Bitcoin deu de cara com o aplicativo fora do ar. A maior corretora de criptomoedas do Brasil confirmou um incidente de segurança “em um de seus sistemas” durante a madrugada e suspendeu depósitos e saques por tempo indeterminado. A empresa garante que nenhum cliente teve prejuízo e que não houve vazamento de dados. Mas a empresa de segurança em blockchain Hypernative afirma ter visto mais de US$ 40 milhões, cerca de R$ 217,7 milhões, saírem de carteiras atribuídas à corretora em poucas horas. O caso acontece quatro dias depois do maior roubo de criptomoedas da história, contra a Binance.
Até a última checagem desta reportagem, o Mercado Bitcoin (MB) não havia informado quanto foi movimentado, de quem eram os ativos nem quando as operações voltam ao normal. Abaixo, a Ulti separa o que a corretora confirmou, o que vem de análises independentes e o que ainda está em aberto, e explica o que muda para quem tem dinheiro na plataforma.
Mercado Bitcoin sofre ataque: o que a corretora confirmou
O primeiro posicionamento veio no comunicado oficial do Mercado Bitcoin no X, publicado por volta das 9h56 (horário de Brasília). O texto diz, na íntegra:
“Identificamos e contivemos com rapidez um incidente de segurança em um de nossos sistemas nesta madrugada. Reforçamos que: não houve nenhum prejuízo aos clientes; não houve vazamento de dados. Como medida preventiva de proteção, depósitos e saques estão temporariamente suspensos. Nossas equipes estão mobilizadas investigando o caso, rastreando os ativos e coordenando as medidas junto às autoridades competentes. Manteremos atualizações regulares por aqui.”
Em nota enviada à imprensa e reproduzida pela Exame, a empresa acrescentou que “o acesso ao aplicativo foi suspenso temporariamente”. A própria página de status do Mercado Bitcoin registrou, entre 9h52 e 9h59, instabilidade grave no login, no aplicativo, no cadastro e na API de negociação. A reportagem da Exame tentou entrar no app às 11h40 e não conseguiu.
Por volta das 11h24, a corretora publicou uma segunda atualização no X com os endereços de destino das movimentações ligadas ao incidente, em cinco redes (EVM, Bitcoin, Solana, Stellar e Tron). A ideia é permitir que outras empresas e analistas rastreiem e bloqueiem os fundos. “Esses endereços são divulgados exclusivamente para fins de identificação e rastreamento”, escreveu a empresa. Ao g1, o MB não confirmou se houve roubo ou movimentação não autorizada de ativos.
US$ 40 milhões em poucas horas: o que mostram os dados da blockchain
A estimativa de valor não vem da corretora, e sim da Hypernative, empresa de monitoramento de segurança em blockchain. Segundo o alerta da empresa, detalhado pelo BeInCrypto Brasil, a movimentação suspeita envolveu carteiras em pelo menos dez blockchains, entre elas Bitcoin, Ethereum, Solana, Tron, Polygon, Arbitrum, Avalanche, BNB Smart Chain e Stellar.
A linha do tempo, convertida para o horário de Brasília, é esta:
- 23h15 de domingo (1º): aparecem as primeiras movimentações suspeitas;
- Entre 3h19 e 3h53 de segunda (2): acontecem as maiores transferências, que mandam a maior parte dos fundos para endereços recém-criados, ligados ao possível invasor;
- Por volta das 9h56: o MB publica o comunicado sobre o incidente “nesta madrugada”, sem citar valores nem o alerta da Hypernative.
De acordo com o levantamento, os endereços ligados ao possível invasor concentravam 2.852 ETH, 106 BTC, 10,7 mil SOL, 6,7 milhões de XLM, 77 mil AVAX, 3,07 milhões de XDC e 1,7 milhão de TRX, além de mais de 200 outros tokens. Só os 106 bitcoins valeriam cerca de R$ 45 milhões, considerando a cotação de R$ 425.692 divulgada pelo próprio MB na manhã de segunda.
Há um detalhe técnico que chama a atenção. Segundo a Hypernative, as transferências não exploraram falhas em contratos inteligentes: foram envios comuns, assinados como se tivessem sido autorizados pelas próprias carteiras de origem. Ainda não está claro como o invasor conseguiu essa capacidade de assinatura. As hipóteses levantadas incluem a exposição de chaves privadas ou falhas na infraestrutura que autoriza as movimentações. A própria Hypernative ressalta que a cifra de US$ 40 milhões é preliminar e depende de confirmar que todos os endereços de origem pertencem de fato à corretora.
Crédito da imagem: Sora Shimazaki / PexelsTether congela parte dos fundos e a caça ao dinheiro começa
Uma das primeiras reações veio da Tether, empresa que emite a stablecoin USDT, uma criptomoeda atrelada ao dólar. O CEO da companhia, Paolo Ardoino, afirmou no X, por volta das 12h06, que a empresa “congelou mais de 4,5 milhões de USDT relacionados a este incidente de segurança”. Antes disso, a Exame havia citado um bloqueio de perto de US$ 3,7 milhões; a diferença provavelmente reflete atualizações ao longo do dia, e o número mais recente é o do próprio Ardoino.
Na prática, o congelamento impede que esses tokens sejam transferidos ou trocados, o que reduz o espaço de manobra de quem está com os fundos. A divulgação pública dos endereços pelo MB segue a mesma lógica: quanto mais corretoras e serviços marcarem essas carteiras, mais difícil fica transformar os criptoativos em dinheiro comum.
O resto do valor, porém, está em moedas que não têm um emissor central capaz de congelá-las, como bitcoin e ether. Nesses casos, a recuperação depende de rastreamento, cooperação entre empresas e ação das autoridades, um processo que costuma ser lento e nem sempre bem-sucedido.
Quatro dias depois da Binance: a semana mais tensa do mercado cripto
O incidente no MB não acontece no vácuo. Na quinta-feira (29), a Binance, maior corretora de criptomoedas do mundo, perdeu cerca de US$ 6,3 bilhões (aproximadamente R$ 34 bilhões) em um ataque que, segundo a CNN Brasil, levou cerca de 20 minutos. No sábado (31), o FBI atribuiu o roubo à Coreia do Norte, ao grupo que a agência chama de TraderTraitor, e pediu que corretoras e serviços de cripto bloqueiem transações ligadas aos endereços usados para lavar o dinheiro.
De acordo com a Reuters, em texto publicado pela NBC News, a Binance disse ter reposto 90% dos ativos roubados com recursos próprios, e o co-CEO Richard Teng garantiu que “os usuários não arcarão com o impacto financeiro”. Mesmo assim, segundo o g1, clientes sacaram US$ 3,64 bilhões a mais do que depositaram desde que a corretora reabriu parcialmente os saques no domingo. A Hypernative, a mesma empresa que alertou sobre o MB, publicou nesta segunda uma análise do caso Binance, apontando que o invasor teria obtido acesso a um serviço interno capaz de enviar saques.
Importante: não há, até agora, nenhuma evidência pública que ligue o caso do Mercado Bitcoin ao ataque à Binance ou a hackers norte-coreanos. A Exame registra que a autoria do incidente no MB não foi divulgada. A coincidência de datas aumenta a desconfiança no setor, mas não prova conexão.
Regras do Banco Central entram em jogo no pior momento
O episódio também cai num momento delicado da regulação brasileira. No fim de 2025, o Banco Central publicou as Resoluções BCB 519, 520 e 521, que criaram as sociedades prestadoras de serviços de ativos virtuais e estenderam às corretoras de cripto regras de proteção ao cliente, governança, controles internos e segurança. As normas estão em vigor desde 2 de fevereiro de 2026.
Pela Resolução BCB 520 e pela Instrução Normativa BCB 704, as empresas que já operavam tinham até a última sexta-feira, 30 de outubro, para entregar a primeira fase do pedido de autorização. Segundo a Exame, o MB fez o pedido e está entre as mais de 60 empresas que agora serão analisadas pelo BC. Quem protocolou no prazo pode seguir operando até a decisão, mas precisa, entre outras coisas, comprovar o cumprimento de normas de segurança cibernética e enviar ao BC informações diárias de saldos e de custódia dos clientes, além de provas de reserva mensais, conforme análise do portal especializado Carta Circular.
Ou seja: o incidente chega à mesa do regulador exatamente quando ele começa a avaliar quem merece continuar no mercado. A Ulti não localizou, até a publicação, manifestação pública do Banco Central sobre o caso.
Crédito da imagem: Eóin Noonan/Web Summit Rio via Sportsfile / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)Confirmado x em aberto: o que dá para afirmar hoje
Confirmado pelo Mercado Bitcoin:
- Houve um incidente de segurança em um dos sistemas da corretora na madrugada de 2 de novembro;
- Depósitos, saques e o acesso ao aplicativo foram suspensos temporariamente, sem prazo de retorno;
- A empresa afirma que não houve prejuízo aos clientes nem vazamento de dados;
- O MB divulgou cinco endereços de destino ligados ao incidente e diz atuar com as autoridades.
Informado por terceiros, sem confirmação da corretora:
- O valor de mais de US$ 40 milhões, estimado pela Hypernative de forma preliminar;
- O congelamento de mais de 4,5 milhões de USDT, anunciado pelo CEO da Tether.
Ainda em aberto:
- Como o invasor conseguiu assinar as transferências;
- Se os ativos movimentados eram de clientes ou do caixa da própria corretora;
- Quanto foi efetivamente perdido e se haverá recuperação;
- Quando depósitos e saques voltam a funcionar;
- Quem está por trás do ataque.
Tenho dinheiro no Mercado Bitcoin. E agora?
A primeira resposta é a mais difícil: por enquanto, não há o que fazer além de esperar. Com saques e depósitos suspensos, não é possível tirar os ativos da plataforma. A corretora diz que não houve prejuízo a clientes, e é essa a informação oficial disponível. Enquanto isso, algumas atitudes ajudam a evitar um segundo problema:
- Não faça novos depósitos até a corretora anunciar a normalização. Segundo publicações que repercutiram o alerta, a própria Hypernative recomendou evitar depósitos até o MB confirmar que suas carteiras estão seguras;
- Desconfie de qualquer contato “de suporte” por
WhatsApp, e-mail, SMS ou redes sociais oferecendo liberar seu saque, pedindo senha, código de verificação ou frase de recuperação. Incidentes de grande repercussão costumam virar isca para golpes; - Acompanhe só os canais oficiais: o perfil verificado do MB no X, o site oficial e a página de status. O MB disse que vai manter “atualizações regulares”;
- Troque a senha e revise a verificação em duas etapas quando o acesso voltar, por precaução, mesmo com a empresa afirmando que não houve vazamento de dados;
- Guarde registros: prints do saldo, extratos e protocolos de atendimento. Se houver problema para reaver valores depois da normalização, eles servem de prova em uma reclamação no Consumidor.gov.br, no Procon ou no Banco Central.
Falando em atendimento, vale lembrar que desde hoje bancos e fintechs supervisionados pelo BC são obrigados a oferecer atendimento humano no SAC, como mostramos na reportagem sobre as novas regras do SAC que passam a valer em 2 de novembro. Se a corretora será enquadrada nessas regras é um ponto que ainda depende do avanço do processo de autorização no Banco Central.
Crédito da imagem: Jakub Zerdzicki / PexelsAcesse o Mercado Bitcoin pelo endereço certo, com a Ulti
Em dias assim, sites falsos e perfis imitando a corretora se multiplicam. Uma forma simples de reduzir o risco é sempre entrar pelo endereço oficial, salvo com antecedência, em vez de clicar em links recebidos. Na página do Mercado Bitcoin na Ulti você encontra o link oficial da plataforma. A Ulti é uma plataforma brasileira que funciona como página inicial da web aberta e reúne em um só lugar os sites e MiniApps que você usa no dia a dia, sem depender de uma única loja de aplicativos ou rede social. Entenda a proposta no guia sobre o que é a Ulti.
A segurança das grandes plataformas digitais, e quem responde quando elas falham, também está no centro de outro debate em Brasília: veja a cobertura sobre o projeto que dá ao Cade poder de impor regras às big techs. E, para entender o pano de fundo dos juros que pesam sobre quem investe, leia a análise do Copom de novembro, que se reúne nesta terça e quarta.
Perguntas frequentes sobre o ataque ao Mercado Bitcoin
O Mercado Bitcoin foi hackeado?
A corretora confirma um “incidente de segurança” em um de seus sistemas na madrugada de 2 de novembro de 2026 e diz que ele foi contido. A empresa de segurança Hypernative aponta um possível ataque, com mais de US$ 40 milhões saindo de carteiras atribuídas ao MB. A corretora não usou a palavra “ataque” nem confirmou valores.
Meu dinheiro no Mercado Bitcoin está seguro?
Segundo o comunicado oficial, não houve prejuízo aos clientes nem vazamento de dados. Essa é a única informação oficial disponível até agora. A corretora não detalhou se os ativos movimentados eram de clientes ou da própria empresa.
Quando os saques do Mercado Bitcoin voltam?
Não há prazo. O MB diz que trabalha para “restabelecer as operações com segurança” e que vai informar os clientes pelos canais oficiais.
Quanto foi roubado do Mercado Bitcoin?
O valor não foi confirmado. A Hypernative estima, de forma preliminar, mais de US$ 40 milhões (cerca de R$ 217,7 milhões) em transferências suspeitas, distribuídas por pelo menos dez blockchains.
O ataque tem ligação com o hack da Binance?
Não há evidência pública disso. O roubo de US$ 6,3 bilhões da Binance, em 29 de outubro, foi atribuído pelo FBI ao grupo norte-coreano TraderTraitor. No caso do MB, a autoria não foi divulgada.
Posso fazer depósitos no Mercado Bitcoin agora?
Não. Depósitos estão suspensos. Mesmo depois da normalização, a recomendação é confirmar a informação nos canais oficiais antes de enviar novos recursos.
O Banco Central regula o Mercado Bitcoin?
Desde fevereiro de 2026, as corretoras de cripto precisam seguir as regras do BC e pedir autorização para funcionar. O MB fez o pedido no prazo, que terminou em 30 de outubro, e pode operar enquanto o processo é analisado.
Fontes e créditos. Fontes consultadas em 2 de novembro de 2026, entre 13h e 13h40 (horário de Brasília); a situação pode mudar ao longo do dia. As informações oficiais vêm dos comunicados do Mercado Bitcoin no X e da página de status da corretora; o valor estimado e a linha do tempo, do alerta da Hypernative, conforme relatado pelo BeInCrypto Brasil e pela Exame; o congelamento de USDT, da publicação de Paolo Ardoino, CEO da Tether, no X. O contexto do caso Binance foi conferido no alerta oficial do FBI e em Reuters/NBC News, g1 e CNN Brasil; as regras do setor, na nota do Banco Central e nos textos da Resolução BCB 520 e da IN BCB 704, com apoio de análise do Carta Circular. Os horários foram convertidos de UTC para o horário de Brasília pela Ulti, e o valor aproximado dos 106 BTC foi calculado pela Ulti com a cotação divulgada pelo MB. A Ulti não teve acesso ao alerta original completo da Hypernative e procurou o posicionamento público do Banco Central, sem encontrar manifestação até a publicação. Créditos das imagens: capa, homem preocupado olhando o celular (imagem ilustrativa), Mizuno K/Pexels, licença Pexels, recortada; notebook com código na tela (imagem ilustrativa), Sora Shimazaki/Pexels, licença Pexels, recortada; Reinaldo Rabelo no Web Summit Rio 2023, Eóin Noonan/Web Summit Rio via Sportsfile, via Wikimedia Commons, licença CC BY 2.0, recortada; celular com gráfico do bitcoin (imagem ilustrativa), Jakub Zerdzicki/Pexels, licença Pexels, recortada. Todas as imagens foram convertidas para WebP.
Ulti Notícias faz parte da plataforma Ulti, citada nesta matéria. Esta reportagem não é recomendação de investimento.




