O Brasil chegou a 84,2 milhões de pessoas com o nome negativado em setembro, o maior número já registrado pela Serasa, e a empresa abre hoje, terça-feira (3), o Feirão Limpa Nome, que vai até 6 de dezembro com mais de 750 milhões de ofertas e descontos de até 99%. A dívida média por inadimplente é de R$ 7.093,83, cerca de 4,4 salários mínimos, e o total em atraso soma R$ 597,4 bilhões. O recorde chega sem o Novo Desenrola Brasil, que encerrou em 31 de agosto, e com a Selic ainda em 13,75% ao ano.
Por trás do número está uma rotina conhecida: boleto que não fecha com o salário, fatura de cartão que vira bola de neve, conta de luz atrasada. A Ulti reuniu o que está confirmado nos dados da Serasa divulgados em 2 de novembro, o que o Feirão realmente oferece, como se proteger de golpes que costumam pegar carona nas campanhas e quais são os seus direitos quando a dívida sai do controle. O que ainda é projeção ou dado de terceiros está marcado como tal.
O recorde em números: 84,2 milhões de negativados e R$ 597,4 bilhões em dívidas
Segundo o Mapa da Inadimplência e Renegociação de Dívidas de setembro, divulgado pela Serasa na segunda-feira (2), o país tinha 84,2 milhões de inadimplentes, contra 83,9 milhões em agosto. A alta é de 6% sobre setembro de 2025 e de 34,17% desde 2020. Na página em que a empresa reúne o histórico do indicador, a série mensal do Mapa da Inadimplência mostra setembro de 2025 em 79,1 milhões, o que dá cerca de 5 milhões de pessoas a mais em um ano (conta da Ulti). Em agosto, a própria Serasa já descrevia o mês como o de maior número da série, após 20 meses consecutivos de alta.
- Valor total em atraso: R$ 597,4 bilhões, 0,90% acima de agosto;
- Dívida média por pessoa: R$ 7.093,83, o equivalente a cerca de 4,4 salários mínimos, considerando o piso de R$ 1.621 citado na cobertura do UOL;
- Quem mais cobra: bancos e cartões de crédito concentram 27,16% das dívidas;
- Novidade no ranking: pela primeira vez, as financeiras ficaram em segundo lugar, com 20,66%, à frente das contas básicas de água, luz e gás, com 20,32%.
Um cuidado de leitura: os números da Serasa contam pessoas com restrição no nome. Já a Peic, pesquisa da Confederação Nacional do Comércio (CNC), mede famílias. Em setembro, a CNC informou que 81,7% das famílias tinham dívidas a vencer, abaixo dos 82% de agosto, e que 29,6% estavam com alguma conta em atraso, o menor nível desde março. As duas medidas não se contradizem: ter dívida não é o mesmo que estar inadimplente, como explica a cobertura do G1 sobre a pesquisa.
Quem são os inadimplentes: mulheres são maioria e 41 a 60 anos lideram
O perfil divulgado pela Serasa desmonta a ideia de que a inadimplência é um problema de um grupo só. As mulheres são 50,5% dos negativados e os homens, 49,5%. Por idade, a maior fatia está entre 41 e 60 anos (35,7%), seguida de 26 a 40 anos (33,2%), acima de 60 anos (20,1%) e 18 a 25 anos (11%).
Crédito da imagem: Kaboompics.com / PexelsNa prática, quase 69% dos negativados estão na faixa de 26 a 60 anos, a idade em que costumam se concentrar aluguel, prestação do carro, escola dos filhos e o cartão de crédito da família. A Peic aponta outro dado relevante: o recuo do endividamento em setembro veio das famílias de menor renda, com queda de 85,1% para 84,6% entre as que ganham até três salários mínimos, enquanto a faixa de 5 a 10 salários subiu de 77,2% para 77,9%, segundo a mesma pesquisa. A inadimplência também subiu marginalmente (de 14,9% para 15%) entre quem ganha mais de dez salários.
Por que a dívida pesa tanto: juros altos e o fim do Desenrola
O peso dos juros é parte central da história. O Banco Central informou em 29 de outubro que a taxa média do rotativo do cartão de crédito subiu de 444,9% para 451,7% ao ano em setembro, e a do cartão parcelado foi de 192,1% para 193%, conforme o UOL, com Estadão Conteúdo. Há uma ressalva importante: a lei limita juros e encargos a 100% do valor original da dívida desde janeiro de 2024, e a taxa anual divulgada é uma extrapolação estatística do juro mensal, já que quem entra no rotativo costuma ficar pendurado por dias ou semanas, não por um ano. Mesmo assim, o número mostra como a bola de neve cresce depressa.
O pano de fundo é uma Selic de 13,75% ao ano. A decisão do Copom sai na quarta-feira (4), e, segundo o Valor Econômico desta terça, a maior parte do mercado projeta manutenção da taxa, o que é uma aposta, não uma decisão tomada. Para entender como os juros chegam ao crédito e ao emprego, veja a análise da Ulti sobre o Copom de novembro; e, para o efeito do câmbio nos preços, o que o dólar a R$ 5,44 muda no seu bolso.
Crédito da imagem: Ricardo Stucke / Lula Oficial (CC BY-SA 4.0)Neste cenário, o Novo Desenrola Brasil saiu de cena. O programa, lançado em 4 de maio, atendia quem ganhava até cinco salários mínimos (R$ 8.105) e tinha dívidas de cartão, cheque especial ou crédito pessoal em atraso entre 91 dias e dois anos, com descontos de até 90%. De acordo com a Agência Brasil, até o fim de agosto foram renegociadas cerca de 5,03 milhões de dívidas, que somavam R$ 26,33 bilhões e caíram para cerca de R$ 5,27 bilhões. A página do Ministério da Fazenda informa que o prazo de renegociação encerrou em 31 de agosto, e a Agência Senado registrou em 8 de setembro que a MP 1.355/2026 perdeu eficácia por não ter sido votada a tempo. Quem fechou acordo antes do prazo mantém as condições contratadas.
Feirão Limpa Nome 2026: o que muda a partir de hoje
Pela página oficial do Feirão Serasa Limpa Nome 2026, esta é a 36ª edição. Ela vai de 3 de novembro a 6 de dezembro e reúne mais de 3,3 mil empresas, entre bancos, varejistas, operadoras de telefonia e empresas de energia e água. A Serasa informa descontos de até 99%, parcelas a partir de R$ 9,90, cupom adicional para pagamento à vista e a possibilidade de "limpar o nome na hora" com Pix nas dívidas elegíveis. O volume de mais de 750 milhões de ofertas é 14% maior que o da edição do mesmo período do ano passado, e a última edição fechou mais de 10,2 milhões de acordos, segundo a cobertura do UOL.
Crédito da imagem: Simplus Menegati / Wikimedia Commons (CC0)Alguns pontos merecem leitura atenta antes de clicar em "aceitar":
- "Até 99%" é teto, não média. Quem define desconto, parcelamento e prazo é a empresa credora, e a Serasa atua como intermediária. Em agosto, o valor médio de cada acordo na plataforma foi de R$ 741, e a empresa informou R$ 11,8 bilhões em descontos concedidos no mês;
- Nome limpo não é instantâneo em todos os casos. Depois da confirmação do pagamento, a credora tem até cinco dias úteis para pedir a retirada da restrição; em alguns acordos por Pix, a atualização pode ser mais rápida;
- Cupom é só para pagamento à vista e não vale para parcelamento, segundo a Serasa;
- Atendimento presencial: a Serasa diz que as mesmas ofertas estão nas agências dos Correios, sem taxa, com documento oficial com foto e CPF. O número de agências varia nas páginas da própria Serasa (mais de 7 mil em uma, mais de 10 mil em outra), por isso vale confirmar a agência da sua região;
- Dívida antiga: a Serasa afirma, em seu FAQ, que dívidas com mais de cinco anos também podem ter ofertas na plataforma.
Como negociar sem cair em golpe
Campanhas de renegociação atraem fraudadores, que copiam logotipo, cores e textos para vender boletos e Pix falsos. A orientação da Serasa em sua página sobre golpes do Limpa Nome é objetiva: a empresa não pede senha, código de autenticação nem pagamento antecipado para liberar desconto, e a negociação pelos canais oficiais é gratuita.
- Entre pelo canal oficial: digite você mesmo o endereço serasa.com.br, abra o aplicativo ou use o
WhatsApp oficial, (11) 99575-2096. Anúncio patrocinado ou link recebido por mensagem não garantem que a página é verdadeira; - Confira o beneficiário: antes de pagar, compare o nome do recebedor, a dívida, a parcela e o vencimento com o acordo que aparece na sua conta. Segundo a Serasa, o beneficiário de um boleto nunca será uma pessoa física;
- Use o validador: no aplicativo, o menu Serviços tem o Validador de Boletos e Chaves Pix, que informa se o código está ligado a um acordo da Serasa;
- Desconfie de urgência: prazo curtíssimo, taxa para "liberar" o desconto e pedido de foto de documento são sinais de alerta;
- Se pagou errado: avise o banco imediatamente. Para Pix, é possível pedir o Mecanismo Especial de Devolução (MED) em até 80 dias, sem garantia de recuperar o valor, e registrar boletim de ocorrência.
Quem tem atendimento humano garantido também pode usar a regra nova do SAC para negociar diretamente com banco, operadora ou varejista. Veja como funciona em Chega de falar com robô: SAC agora é obrigado a passar você para um humano.
Seus direitos: prazo de cinco anos, superendividamento e Procon
Estar negativado não é uma condenação eterna. A Súmula 323 do Superior Tribunal de Justiça estabelece que a inscrição do nome do devedor pode ser mantida nos serviços de proteção ao crédito até o prazo máximo de cinco anos, independentemente da prescrição da execução. Cada caso tem particularidades, e a contagem do prazo e a eventual prescrição da dívida devem ser avaliadas com a ajuda de um advogado, de uma defensoria ou de um órgão de defesa do consumidor.
Para quem já não consegue pagar tudo sem comprometer o básico, existe a Lei do Superendividamento. A Lei 14.181/2021 define superendividamento como a impossibilidade manifesta de o consumidor pessoa natural, de boa-fé, pagar a totalidade de suas dívidas de consumo sem comprometer seu mínimo existencial. Ela prevê uma audiência de conciliação com todos os credores, na qual o consumidor apresenta um plano de pagamento de até cinco anos, e permite que os órgãos de defesa do consumidor conduzam a fase conciliatória. O acordo deve indicar a data a partir da qual o nome sairá dos cadastros de inadimplentes.
Há exclusões: dívidas com garantia real, financiamentos imobiliários, crédito rural e contratos feitos com a intenção de não pagar ficam de fora do processo de repactuação. O Ministério da Justiça mantém uma página sobre superendividamento com material da Senacon, além de indicar o Registrato, do Banco Central, para consultar as relações do cidadão com instituições financeiras, e o portal consumidor.gov.br para reclamações.
Confirmado x em aberto
Confirmado:
- 84,2 milhões de inadimplentes em setembro, recorde da série da Serasa, e R$ 597,4 bilhões em dívidas em atraso;
- Feirão Limpa Nome de 3 de novembro a 6 de dezembro, com mais de 750 milhões de ofertas e 3,3 mil empresas;
- Novo Desenrola Brasil encerrado em 31 de agosto, com a MP 1.355/2026 sem votação a tempo;
- Rotativo do cartão a 451,7% ao ano em setembro, pela estatística do Banco Central;
- Selic em 13,75% e decisão do Copom na quarta-feira (4).
Em aberto:
- Quanto do Feirão vai se converter em acordos pagos e quantos nomes serão de fato limpos, o que só aparecerá nos próximos Mapas da Serasa;
- Se a decisão do Copom manterá a Selic, hipótese majoritária no mercado, mas não confirmada;
- Se o governo ou o Congresso vão propor um novo programa de renegociação: a Ulti não encontrou, até esta checagem, anúncio oficial nesse sentido;
- O efeito do dólar e dos juros altos sobre a inadimplência dos próximos meses, que depende de preços, renda e emprego e por ora é apenas projeção.
Como organizar as dívidas e acompanhar sem se perder
Antes de aceitar qualquer oferta, vale um roteiro simples: liste todas as dívidas, separe as essenciais (moradia, luz, água, alimentação) das demais, priorize as de juros mais altos, como rotativo do cartão e cheque especial, e só feche acordo cuja parcela caiba no orçamento sem abrir um novo buraco. Comparar a oferta da Serasa com a que o próprio banco ou a loja faz no aplicativo também é uma boa prática. Nada disso é aconselhamento financeiro individual: em casos complexos, procure o Procon, a defensoria pública ou um profissional habilitado.
Para não depender de dezenas de abas e e-mails, a Ulti é uma plataforma brasileira que quer ser o sistema operacional da web: funciona como página inicial da web aberta e reúne em um só lugar os sites e MiniApps que você usa no dia a dia, como notícias, serviços públicos e atalhos para os canais oficiais de cada serviço, sem depender de uma única loja de aplicativos ou rede social. Entenda a proposta no guia o que é a Ulti e na análise sobre um WeChat brasileiro, o gov.br e os MiniApps.
Perguntas frequentes sobre a inadimplência recorde e o Feirão Limpa Nome
Quantos brasileiros estão inadimplentes?
Segundo a Serasa, 84,2 milhões de pessoas estavam com o nome negativado em setembro de 2026, um recorde da série. Em agosto eram 83,9 milhões, e em setembro de 2025, 79,1 milhões.
Quando começa e quando termina o Feirão Limpa Nome?
A 36ª edição começa em 3 de novembro e vai até 6 de dezembro de 2026. A negociação on-line funciona todos os dias, inclusive aos fins de semana e feriados.
Participar do Feirão custa alguma coisa?
Não. A Serasa afirma que a consulta e a negociação são gratuitas, inclusive no atendimento nos Correios. Você paga apenas o valor do acordo fechado, diretamente à empresa credora.
O desconto de 99% vale para todo mundo?
Não. É o teto das ofertas e depende de cada dívida e de cada credora. Em agosto, o acordo médio na plataforma foi de R$ 741.
O nome sai do cadastro na hora?
Em dívidas elegíveis pagas por Pix, a Serasa diz que isso pode acontecer na hora. Em geral, a credora tem até cinco dias úteis, depois da confirmação do pagamento, para pedir a baixa.
O Desenrola ainda existe?
O prazo do Novo Desenrola Brasil para renegociação de dívidas de famílias encerrou em 31 de agosto, segundo o Ministério da Fazenda, e a MP que o criou perdeu a eficácia sem ser votada. Acordos fechados no período continuam valendo.
Por quanto tempo meu nome pode ficar sujo?
Pela Súmula 323 do STJ, até cinco anos nos cadastros de proteção ao crédito. O prazo e a eventual prescrição dependem do caso, então vale pedir orientação jurídica.
Como saber se um boleto do Feirão é verdadeiro?
Entre no site ou no aplicativo da Serasa, confira o acordo na sua conta e use o Validador de Boletos e Chaves Pix. Se o beneficiário for uma pessoa física ou houver cobrança de taxa antecipada, não pague.
Fontes e créditos.
Ulti Notícias faz parte da plataforma Ulti, citada nesta matéria. Fontes consultadas em 3 de novembro de 2026, de manhã (horário de Brasília): Serasa (Mapa da Inadimplência, página do Feirão Limpa Nome, FAQ e página sobre golpes), UOL e Estadão Conteúdo (dados da Serasa e do Banco Central), CNC (Peic de setembro, via Portal do Comércio e G1), Agência Brasil, Ministério da Fazenda, Agência Senado, Planalto (Lei 14.181/2021), Ministério da Justiça, STJ (Súmula 323) e Valor Econômico. Os dados de inadimplência são da Serasa e se referem a setembro; o indicador mede pessoas com restrição no nome, não famílias endividadas. O cálculo de cerca de 5 milhões de inadimplentes a mais em um ano é da Ulti, a partir da série da Serasa. Este texto não é recomendação financeira nem orientação jurídica. Imagens: capa, mão sobre calculadora e boletos, Joédson Alves/Agência Brasil, foto de arquivo de 15/03/2024, uso gratuito para fins jornalísticos mediante crédito, conforme a política de reprodução da EBC (a licença Creative Commons da agência não se aplica a conteúdos produzidos depois de fevereiro de 2017), recortada; mulher conferindo recibo, Kaboompics.com / Pexels, Licença Pexels (uso livre, sem atribuição obrigatória), foto ilustrativa; agência dos Correios em Telêmaco Borba (PR), Simplus Menegati, via Wikimedia Commons, licença CC0 1.0, foto de 2020 recortada; assinatura da MP do Novo Desenrola, Ricardo Stucke / Lula Oficial, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0. Todas as imagens foram convertidas para WebP.




